Entrevista publicada na revista WebDesign edição nº 50, de fevereiro de 2008. Case: WordPress no Ministério da Cultura.

UPDATE: 17/10/2008 - Disponibilizada a entrevista completa. Espero que vocês gostem.

A preservação e o incentivo às manifestações culturais no país são algumas das principais bases conceituais no funcionamento do Ministério da Cultura (MinC). Pensando nisso, a reformulação de seu site (www.cultura.gov.br) procurou atender às necessidades de quem o visita atrás de informações no segmento.

Neste bate-papo, Guilherme Aguiar, coodenador de interface e integração de serviços da Diretoria de Gestão Estratégica do MinC, revela as particularidades envolvidas para que o projeto obtivesse êxito em seu desenvolvimento.

1 - Quais foram os principais motivadores para que a Diretoria de Gestão Estratégica desenvolvesse um novo redesenho do site do Ministério da Cultura, lançado oficialmente em 26 de novembro do ano passado?

Primeiramente, foi a necessidade de sistematização/organização das informações do site em uma interface mais simples e intuitiva. O melhor atendimento às demandas do público externo (cidadãos) e interno (servidores do Sistema MinC) era prioridade para o site.

Outro ponto a se destacar foi a importância de um envolvimento maior dos servidores do sistema MinC (geradores de informações) com a ferramenta de gerenciamento do site, possibilitando a descentralização da publicação, geralmente restrita aos órgãos de comunicação ou às empresas contratadas com essa finalidade. As áreas ganham muito mais autonomia e, conseqüentemente, as informações disponibilizadas no site são mais atualizadas, o que torna nossos serviços mais eficientes para o usuário final.

2 - O prévio conhecimento do perfil do usuário que acessa um determinado site é uma grande vantagem na hora de se estruturar o ambiente. Qual é o perfil de quem acessa o site do Ministério da Cultura e de que forma tais características influenciaram no desenvolvimento da nova interface?

O perfil de quem acessa o site do MinC é formado basicamente por pessoas que buscam apoio para projetos culturais (pequenos e grandes produtores, artistas independentes, etc.), responsáveis por cerca de 50% do total dos acessos. Esse perfil influenciou principalmente na reestruturação geral da área de Apoio a Projetos, na criação de uma área específica para Editais e na implementação de um novo sistema de busca de projetos.

Anteriormente, existia no site do MinC um espaço muito grande para notícias, e algumas informações, como os avisos sobre lançamento de editais - importantes para o nosso usuário e, portanto, muito buscados - acabavam ficando de fora da capa. Com o estudo do perfil dos usuários, dividimos as sessões do site de forma mais organizada e de fácil entendimento (dividido por cores). Os problemas detectados para se chegar a uma nova arquitetura acabaram sendo pontuais e a definição dos tipos de conteúdos foi organizada com facilidade.

Hoje, continuamos monitorando o acesso ao site, e um dos destaques verificados nestes dois meses, desde que o novo site entrou no ar, foi a diminuição da taxa de rejeição (pessoa que entra no site e sai logo em seguida) em 30%.

3 - Atualmente, por força de lei, a criação, o desenvolvimento e a manutenção dos ambientes governamentais brasileiros na internet devem adotar os preceitos básicos de acessibilidade. Como vocês incluíram esta determinação no redesenho do site do Ministério?

As recomendações de acessibilidade para a construção e adaptação de conteúdos na internet, do departamento de Governo Eletrônico, está bem dividida conforme Níveis de Prioridade. Essas recomendações foram seguidas durante todo o processo de redesenho do site do Ministério, sempre utilizando programas avaliadores de acessibilidade, como o Da Silva, e programas leitores de tela, como o Dosvox/Webvox.

Durante a montagem da interface, sem o Wordpress, conseguimos passar pelos três níveis de prioridade. Porém, quando começamos a implementar o site no Wordpress, alguns detalhes precisaram ser alterados. Questões de acessibilidade em grandes portais montados com CMS requerem um grande trabalho, sobretudo porque temos muitos editores gerenciando links e imagens.

No Wordpress, é possível validar todo o código no W3C, e estamos trabalhando para tornar o site cada vez mais acessível.

4 - Um dos grandes destaques nesta reestruturação está presente no uso do WordPress como a ferramenta de gerenciamento de conteúdo do site. Quais foram os parâmetros e que tipo de avaliação vocês fizeram para definir o sistema a ser utilizado neste projeto?

Quando entrei no Ministério da Cultura, no começo de 2007, era utilizada no gerenciamento do site a plataforma Waram (cedida pela prefeitura de São Paulo). Foi avaliado que a mesma possuía uma série de limitações no desenvolvimento de novas interfaces e na criação de novas funcionalidades. Sendo assim, nos projetos rápidos (que não contavam com a participação efetiva do design e do programador) optamos por utilizar o Wordpress, com o qual eu já tinha alguma familiaridade.

Aos poucos, fui descobrindo as várias possibilidades desta plataforma de blog nos projetos, e percebi que ela também poderia ser utilizada em um projeto de grande porte. Apresentei o Wordpress para toda equipe e a partir de então focamos o trabalho no estudo e na adaptação da ferramenta para as necessidades do novo site do MinC.

O Wordpress se encaixou perfeitamente ao que estávamos procurando, por ser uma plataforma produzida de forma colaborativa por uma comunidade global de desenvolvedores, com base no princípio ‘open source’ ou código aberto. Isso permitiu a criação de customizações que tornaram possível o desenvolvimento das funcionalidades apresentadas em um tempo bastante curto, considerando a quantidade de projetos paralelos e o tamanho da equipe de desenvolvimento (somente 3 pessoas).

5 - O Ministério da Cultura é um dos principais núcleos governamentais no incentivo ao uso de software livre no mercado brasileiro. Em relação à criação e ao desenvolvimento de projetos interativos, levando-se em consideração a experiência vivida no site do Ministério, como esta filosofia pode ajudar na transformação do segmento? Quais são as vantagens e as desvantagens no uso do software livre no desenvolvimento de projetos web?

O movimento do software livre e a Internet se desenvolveram juntos: o sucesso de um está intimamente ligado ao avanço do outro, e vice-versa. Portanto, o discurso do Ministro Gilberto Gil pelo uso do software livre deve naturalmente ter a web como principal espaço de exploração dessas possibilidades.

A experiência do MinC ao implementar o Wordpress comprovou que é possível construir sistemas de qualidade utilizando ferramentas livres, proporcionando ao governo a oportunidade de economizar na contratação de desenvolvimento web terceirizado e investir estes recursos em desenvolvimento, capacitação e especialização dos servidores do próprio orgão. Além disso, o uso de aplicações livres permite ao órgão ter controle sobre a ferramenta de trabalho e suas formas de uso. A possibilidade de compartilhar os frutos deste desenvolvimento com outras instituições públicas pode trazer muitos benefícios, e alguns destes resultados podem ser conferidos no Portal do Software Público .

No caso específico do gerenciamento de projetos web na administração pública, impacta especialmente a dificuldade na contratação de empresas e consultorias para a prestação de serviços. As exigências legais podem tornar esse processo moroso, contrastando com o dinamismo e agilidade que a construção de um site e sua alimentação demandam. Neste contexto, a capacitação de equipes internas no uso de ferramentas livres pode ser uma excelente estratégia para promover a apropriação da web como ferramenta de comunicação e prestação de serviços dos órgãos públicos para com o seu público usuário.

Algumas aplicações livres têm interfaces pouco intuitivas, instalações complicadas e estabilidade ruim, características que espantam qualquer pessoa. Porém, com o desenvolvimento colaborativo, muitos programas de código aberto evoluiram bastante, principalmente para se tornarem estáveis e familiares aos usuários. No caso do Wordpress, considero que ele já nasceu com uma interface bastante agradável e acredito que na versão 2.5, que será lançada no final de março, muitas pessoas irão se surpreender.

6 - Outro conceito apoiado pelo Ministério da Cultura refere-se à utilização do Creative Commons como base de licenciamento dos direitos autorais. Para se ter uma idéia, o próprio site do Ministério está sob a proteção desta licença. Quais são as principais mudanças quando um site adota este tipo de licença? Por que utilizá-la?

Segundo o Ministro Gil, estamos vivendo o surgimento da cultura digital, caracterizada pela comunicação peer to peer, bittorrent, descentralizada, que viabiliza os anseios mais profundos dos grandes pioneiros da internet - criar uma grande e permanente conversa global. A Wikipedia é a principal expressão da força da comunidade e da colaboração; da força da partilha. Além dela, também os blogs e as práticas radicais de jornalismo-cidadão fazem parte desse movimento. O Creative Commons é um modelo de gerenciamento de direitos autorais nativo deste novo ambiente colaborativo.

Trata-se de uma licença alternativa à tradicional “todos os direitos reservados” e às obras de domínio público, com a proposta de “alguns direitos reservados”. Permite de forma expressa a utilização ou modificação de obras mediante atribuição a seus autores originais. No caso do website do MinC, com a utilização da licença CC 2.0 , deixamos claro aos visitantes que é permitida a reprodução mediante a publicação do devido crédito, mas vedado o uso para obras derivadas e o uso em peças comerciais de tudo o que é publicado como conteúdo original sob o endereço www.cultura.gov.br.

7 - Em termos de arquitetura da informação, o novo projeto diminuiu o número de colunas que dividem o conteúdo na interface (de quatro para três) e também o número de seções (de seis para cinco). Como vocês chegaram a tal definição?

No site anterior, os links para instituições vinculadas ocupavam espaço e destaque desnecessários na primeira coluna. Também existia um espaço denominado Ações Relacionadas que foi retirado no redesenho do site.

Com a relocação dos itens antes disponíveis em Ações Relacionadas para as categorias às quais realmente pertenciam, e a determinação de que as instituições vinculadas deveriam ficar na parte de baixo do site, foi possível dividir o site em 3 grandes blocos após ter criado um mapa de elementos para cada característica.

Percebemos que esta seria a melhor alternativa, visto que ao manter o menu sempre no topo poderíamos construir uma arquitetura mais simétrica, onde o conteúdo dificilmente seria confundido.

No caso das seções, a mudança ocorreu quando optamos por juntar 2 menus que as vezes se confundiam. Antes tínhamos um item para Políticas e outro para Programas e Ações, agora temos somente um menu - chamado Políticas, programas e ações - onde estão todas as categorias das 2 áreas.

8 - Ainda sobre a arquitetura do site, comparando com a versão antiga, é possível perceber que as funcionalidades de busca de conteúdo e de projetos ganharam um espaço mais privilegiado no layout. Quais fatores influenciaram para o novo posicionamento destes elementos na interface?

Como estamos tratando de um perfil de usuário que está principalmente em busca de apoio e informações para projetos, as demandas por informações específicas e relevantes, como no caso da nova pesquisa de projetos, precisavam ter um bom destaque no site. Com isso, posicionamos na home do site as pesquisas na lateral direita e inserimos alguns novos campos para facilitar o resultado da pesquisa.

Atualmente estamos trabalhando em novas alternativas para definir melhor o espaço para tais funcionalidades, pois ainda neste mês iremos disponibilizar uma primeira versão do sistema de cadastro de projetos via web, que também precisará de destaque. Esse sistema será um dos mais importantes para quem está em busca de um projeto, e até o final do ano pretendemos utilizar uma certificação digital para o envio dos dados (previsto no contrato firmado recentemente com a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa - RNP).

9 - Sobre o novo design, a nova paleta de cores agora é baseada nas cores azul, verde e laranja. Por que vocês decidiram utilizar esta combinação cromática na nova versão do site do Ministério?

Utilizamos o azul e o laranja por serem cores complementares. O verde foi escolhido por ser uma cor de equilíbrio.

Desta forma, focalizamos o elemento central na cor verde, destacando principalmente os editais abertos. Ao lado do verde ficaram o azul - significando lógica e ponderação, onde podemos encontrar todas as políticas e serviços oferecidos pelo MinC (algo mais institucional) - e o laranja, representativo da efervescência de algo novo, curioso e dinâmico, que nos permite principalmente traduzir a emoção, a alegria e a força tão presentes na Cultura do Brasil.

10 - Outro detalhe em relação às cores envolve a sua atribuição e relacionamento na separação das seções e do conteúdo dentro do site. De que forma vocês definiram que o laranja, por exemplo, seria utilizado para indicação das áreas de atualização mais constante?

Como estamos tratando de um conteúdo diferenciado para cada tipo de característica, faz grande diferença uma navegação que facilite o entendimento do usuário.

O laranja, como foi dito, é uma cor que envolve a curiosidade e a busca por algo novo, sendo ideal atribuí-lo às áreas de publicações mais dinâmicas (o Dia-a-dia da Cultura). Existem áreas do portal do Ministério da Cultura que geram bastantes comentários, discussões e debates, como os Blogs do Minc e Fóruns, nos quais também foi utilizada esta cor.

11 - Um aspecto gráfico muito interessante no novo site é a utilização de um cabeçalho randômico, com a “exposição do trabalho de artistas gráficos, designers, ilustradores e fotógrafos”. Como surgiu a idéia deste miniprojeto e quais foram os desafios para a sua implementação?

O Design inicial feito para o site não previa o “Cultura em Movimento”, mas apenas o cabeçalho randômico com 6 imagens diferenciadas que seriam atualizadas constantemente pela equipe, retratando fatos, datas e eventos importantes ligados à cultura brasileira.

A idéia de trazer a participação de artistas surgiu quando nos foi apresentado o projeto web do evento ARCO Madrid - uma feira de arte Contemporânea que ocorrerá em fevereiro em Madrid-Espanha e terá como tema o Brasil. José Murilo, gerente da equipe, nos perguntou “porque não abrir espaço para os artistas?”.

Depois disso, pensamos em um nome legal e resolvemos fazer um pequeno sistema que trouxesse automaticamente as últimas 6 melhores artes enviadas por webdesigners, artistas, ilustradores e fotógrafos. Trata-se de um sistema bem simples, no qual cadastramos artes selecionadas entre as que foram enviadas diretamente para nosso email.

Ainda neste mês iremos implementar um sistema de votação que tornará mais democrática a escolha das artes.

12 - Dentre as funcionalidades de orientação na navegação, o novo projeto serve como um bom exemplo no uso dos breadcrumbs. Dando uma analisada no código-fonte do site, percebemos a utilização do plugin “Breadcrumb Nav XT” ( http://sw-guide.de/wordpress/plugins/breadcrumb-nav-xt/ ). Quais são os cuidados necessários na hora de se utilizar um plugin para automatizar o desenvolvimento de um determinado processo de um ambiente?

Os cuidados necessários residem principalmente nos conflitos que podem ocorrer com outros plugins e na incompatibilidade com a versão do Wordpress.

Alguns plugins contam com recursos extras ou encontrados apenas em versões mais recentes do WP. Portanto é sempre bom dar uma lida nas instruções de cada plugin para saber se estes estão de acordo com as configurações utilizadas no sistema.

Outro ponto, são falhas no código que podem fazer com que o plugin não funcione da maneira desejada, abrindo brechas que possam por em risco a segurança do site. Nesse caso, uma simples busca na Internet pode fornecer informações de outros usuários que também utilizem o plugin, mas também existe a possibilidade de ler o código fonte a fim de revisá-lo.

13 - Em termos de Web 2.0, um de seus conceitos que mais parece ter se firmado envolve o uso da folksonomia. No site do Ministério, vocês implementaram uma funcionalidade conhecida como nuvem de tags. Qual é a sua principal função dentro do ambiente e de que forma ela ajuda no processo de navegação do usuário pelo site?

No website do MinC, as tags são utilizadas pelos editores e autores como alternativa mais livre de classificação dos conteúdos. Neste caso, podemos dizer que as tags são “palavras-chave” auxiliares para que o usuário possa encontrar o conteúdo desejado como se fosse por meio de uma busca.

14 - Para finalizar, quais são as próximas etapas no processo de administração e as novidades a serem lançadas no site do Ministério?

Para os projetos internos do MinC, estamos iniciando o estudo de uma nova arquitetura para a extranet e estudando alternativas para termos um login único de acesso ao site, ao perfil dos usuários e aos emails (utilizando a tecnologia LDAP). Outro projeto muito importante, como já foi dito, é o do cadastro de projetos culturais via web, pelo qual iniciaremos a reestruturação de toda a interface e a implementação de novas funcionalidades.

Com relação ao site do Ministério, está para ser lançada uma melhoria do sistema de comentários; a interface para as respostas ganhará um destaque maior e terá cores diferenciadas. Atualmente, estamos trabalhando também na melhoria do sistema de chat com webcast, para participação remota de todos os usuários que tiverem interesse em acompanhar os eventos/seminários que serão transmitidos em tempo real nos blogs.

Até o final do ano pretendemos lançar no site do MinC uma espécie de rede social aberta para determinadas categorias, na qual o usuário comum poderá se cadastrar e ter acesso ao seu perfil, podendo inclusive publicar conteúdos no site e conversar com outros usuários.